ENTREVISTA COM MARCOS MARTINO

Marcos José Martino Abreu Lima é músico, Cruzeirense doente, compositor, produtor de eventos, trabalha com projetos de produção artística, musical e publicitária. Foi co-fundador do Verde Terra, que nasceu no Festival e fez bastante sucesso em sua época. Depois foi co-fundador da banda de Rock República dos Anjos e ajudou a organizar vários festivais em Alvinópolis e também em outras cidades. Nascido e criado na rua de Cima, Marcos também é escritor e blogueiro e escreve nos blogs: Cenários; Mediopira; Alvinópolis Que Pensa; Memórias Festival Alvinópolis e Alvinopolenses de Valor.

A seguir esta belíssima entrevista que ele nos concedeu com muito carinho:

1) Olá Marcos, ficamos muitíssimo gratos com a sua atenção. O compositor Tom Zé comenta que os sacerdotes do Egito antigo, quando iam comunicar-se com suas deidades usavam uma calda, como sinal de reverência, colocando-se numa posição mais próxima das besta e dos animais. Cremos que todo músico alvinopolense lhe deve respeito similar, sua experiência com a música e produção cultural é riquíssima e, certamente, você tem muita história para contar. Entretanto, para dar o pontapé inicial, conte-nos como se deu seu primeiro contato com a música, existe alguma motivação especial, alguma referência, que tenha te lançado por esse caminho?

MARCOS MARTINO – Meu contato com a música se deu escutando a cidade, os sinos da igreja matriz, os sinos dos enterros indo pro cemitério, as Siriemas, os cantos dos fieis na igreja, os padeiros que gritavam – olha o pão, pelas ruas, a Banda Santo Antônio com seus dobrados, as fanfarras do colégio,  da algazarra da meninada depois da aula, os carnavais, o congado de N.S. do Rosário, os bailes que aconteciam na cidade, dos Heltons, 007 e Morcegos e finalmente dos festivais de música. Só não acompanhei 3 edições . Foi sem dúvidas minha maior escola

2) Sabemos que além do Festival de Alvinópolis, você já participou de diversos outros. Provavelmente estas participações influenciaram enormemente sua formação como pessoa e como músico. Como você avalia a importância de um evento como este para os artistas e para o público?

MARCOS MARTINO – Foi no festival que aprendi a escrever e a lapidar o texto, pois o corpo de jurados é como uma banca examinadora. Se tiver um detalhe errado na letra, um erro mínimo de português, o concorrente perde nota mesmo. Então, o artista, se quiser ganhar prêmios, terá de caprichar nos textos e nos detalhes e conseguir uma apresentação tecnicamente perfeita. Os Festivais são eventos vitrine, oportunizam vários artistas, envolvem um batalhão de gente. Poucos se dão conta, mas pelos palcos dos festivais passam entre 100 a 200 artistas. É muita coisa. Para o público é oportunidade para conhecerem novos artistas, novas expressões. Esse é um assunto que merece um debate à parte, pois o público tem se afastado da cultura que não seja a popular. Atrair o público para eventos de perspectiva cultural tem sido um grande desafio.

Martino com amigos, ex integrantes do Grupo Verde Terra

3) Suas composições destacam-se pela beleza e atemporalidade, canções como “Natureza Humana”, “Programação de Gente” e “Do outro lado do espelho”, são muito atuais, e certamente jamais perderão seu poder de comunicação. Queremos saber de onde surgem essas ideias, e como é seu processo criativo. Você é do tipo que fica mastigando uma ideia, trabalhando nela até chegar numa forma que lhe agrade, ou você faz mais o tipo intuitivo, que se deixa levar pela inspiração?

MARCOS MARTINO – Pouquíssimas composições eu levei mais do que 15 minutos pra fazer. Essas coisas parecem seção espírita. Elas baixam (rs). Claro que depois a gente dá uma mexida aqui e ali. Mas quase sempre nascem de forma espontânea.  Mas não tem fórmula de bolo. Por exemplo, a música MASSACRE NO SOLIMÕES, com a qual vencemos um Festival em Alvinópolis, nasceu na sala de aula no Colégio, numa aula de literatura da Professora Maria Gonçalves. Dico de Caitanim tava fazendo uma batida estranha na mesa do colégio e dai nasceu o bit e a música saiu em alguns minutos. As vezes uma música surge de uma frase também. A música FESTA DA PADROEIRA por exemplo, surgiu de uma frase inicial do Jovelino. O resto da letra saiu também em poucos minutos. Foi feita durante uma Festa de NS do Rosário em Alvinópolis.

4) Suas músicas frequentemente abordam sua afinidade pelo interior e por sua terra natal – a canção “Interior” é um exemplo vivo disso. No entanto nós sabemos que em certa altura você se mudou para a capital. O que esta mudança de cenário representou para você, como isto te afetou musicalmente?

MARCOS MARTINO – A gente geralmente sai da cidade quando os horizontes ficam pequenos. Naquela época não havia internet ( parece impensável) e eu me mudei pra BH pra tentar expandir os horizontes. Na época o Verde Terra estava tocando bem menos. O ciclo dos festivais estava acabando. As cidades começaram a fazer cavalgadas e feiras agropecuárias e pararam de fazer festivais de música. E eu em BH conheci músicos muito bons e acabei fascinado pelo rock e pelo jazz. Eu gostava das possibilidades que o rock oferecia, de fazer letras irreverentes, mais cruas. Daí nasceu o República.  Claro que isso me afetou profundamente. Eu era um menino do interior deslumbrado com a cidade grande, com a cultura urbana recém descoberta. Queria experimentar e aprender coisas novas…

5) Sua participação como produtor também é muito importante para o Festival de Alvinópolis. Nessas 35 edições você já deve ter presenciado coisas interessantes, tanto nos bastidores, como produtor, quanto nos palcos. Conte-nos sobre algum fato marcante vivenciado por você durante alguma das edições do Festival.

MARCOS MARTINO – São tantas emoções (rs). Ah…imagens demais que vem à cabeça. Deixa eu fazer tipo um caleidoscópio. Inesquecíveis algumas figuras como Chico Bread com sua roupa branca, seu violão folk e sua gaita. Cristina Valle cantando como se fosse ume entidade, com uma voz divinal, o Grupo Ave de Ouro Preto, com uma absurda qualidade,  Marco Holanda, que parecia ter saído de uma escultura  do aleijadinho, cantando no festival da piscina com uma neblina de cortar com faca, aquela figura fantasmagórica cantando uma melodia profana, surreal. Fatos pitorescos? São muitos. Por exemplo, o concorrente que tinha o nome artístico de “Tchau com as duas mãos”. Não parei de rir até hoje.

Considero importantes todas as edições. Desde as maiores ( teve um festival que praticamente durou 10 dias na praça da baixada) até as menores que foram feitas dentro do Nicks. Todas tem sua importância para que o festival chegasse a 36 edições. Foi por valentia de muita gente. Primeiro de Chico Franco que deu o pontapé inicial, com os formandos do colégio, que faziam pra juntar dinheiro para viajar no final do ano, depois com Joãozinho de João de Vina, que fez por uns 10 anos praticamente sozinho, teve também  Edimare, Mariângela que fez um ótimo festival, Angelo Eugênio, Pedro Baiano, Sr Fernandes da Banda Mario França,  Marcelo Xuxa, Ronilson Bada e Manoel, Jovelino também, mais recentemente Alessandro entrou pro clube e finalmente agora uma nova turma tá pegando o bastão pra levar adiante. O Festival tá vivo e isso é ótimo.

Marcos Martino e Estorvo na premiação do 34º Festival da Canção de Alvinópolis

6) Você já deve ter passado por poucas e boas no Festival, e mais do que ninguém deve estar ciente das dificuldades que encontramos para produzir um evento como esse. Ciente do nosso histórico de erros e acertos, quais são suas expectativas para edição deste ano, e quais projeções você faz para os próximos anos?

MARCOS MARTINO – Vocês para este ano parecem ter uma coisa que não existe há muito tempo, que é uma equipe numerosa, um grupo que está se irmanando para cuidar nos mínimos detalhes. É uma coisa que faltou nos últimos anos.  E acho que por serem jovens e conhecerem as demandas dos artistas mais “contemporâneos”, podem oferecer soluções capazes de atender essas demandas e fazer com que o evento evolua.

7) Quais são seus planos atuais com a música, seremos contemplados com uma composição sua no “36º Festival da Canção de Alvinópolis?”.

MARCOS MARTINO – Eu trabalho com música aplicada a publicidade. E devo esse conhecimento ao Festival. Se não aprendesse a compor, se não lapidasse esse dom na peneira dos festivais, com certeza não teria esse diferencial profissional. Publicidade é arte de fora pra dentro. Você cria a partir de uma demanda do cliente. Já na arte é diferente. É de dentro pra fora. Eu continuo compondo, continuo criando, tenho um baú cheio de coisas. Penso em fazer alguma coisa com isso mas ainda não sei exatamente o que. A qualquer momento pinta uma conjunção, uma faísca pra atear fogo no tesão adormecido.. Quanto a inscrever músicas esse ano, eu até tenho alguns rascunhos, mas não sei se vai dar tempo de gravar e encontrar alguém pra interpretar. Além do mais tem o drama da triagem, pois serão apenas 20 músicas. Vai ser um pega pra capar pra classificar.

Marcos ainda atua como músico e produtor de eventos

8) Para finalizar, o que tem do outro lado do espelho?

MARCOS MARTINO – O espelho da música é metafórico, universo paralelo refletido  ao contrário, dualidades que completam e repelem. Também pode ser como o quadro do Dorian Gray, revelando as imperfeições.  O espelho é cruel…principalmente com o passar dos anos

 

Fim da entrevista

Para conhecer mais sobre o trabalho de Marcos, basta entrar em contato com ele por meio de sua página no Facebook. Neste Site você encontra mais informações acerca de seus trabalhos com publicidade. Sua obra musical pode ser encontrada no Palco MP3: nos discos “República dos Anjos”, “Serenata” e “Solo Fértil”. O ’36º Festival da Canção de Alvinópolis’ será realizado nos dias 7, 8 e 9 de Setembro, e contará com a participação de artistas geniais como Marcos. As inscrições vão até o dia 24 de Agosto, consulte o regulamento e inscreva-se!

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